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Estratégia comercial

FOLHA DE S. PAULO - SP
10/03

Com direito a retaliar, Brasil pretende negociar com americanos deveria, além disso, revigorar comércio com os EUA

SE NO TERRENO da política internacional as divergências sobre a aplicação de sanções ao Irã separam Brasil e Estados Unidos, no campo comercial, os dois países enfrentam o espinhoso caso das retaliações que o Brasil foi autorizado a praticar contra os norte-americanos pela Organização Mundial do Comércio.

O contencioso surgiu em 2002, quando representantes brasileiros contestaram na OMC os subsídios concedidos pelo governo dos EUA aos produtores locais de algodão. No entendimento do Brasil, os benefícios eram desleais, distorciam os preços do produto no mercado mundial e prejudicavam suas exportações.

A OMC concedeu ganho de causa ao país e determinou que os EUA recuassem das medidas. Como nada aconteceu, o governo brasileiro optou por recorrer ao direito de retaliar. Autorizado a aplicar sanções de até US$ 829 milhões, o Brasil divulgou anteontem uma lista de produtos norte-americanos que terão tarifas de importação elevadas.

O pacote, com 102 itens, corresponde a US$ 591 milhões -de uma pauta de importações dos EUA que atingiu cerca de US$ 20 bilhões no ano passado. Pela decisão da OMC, que se tornou um marco para disputas futuras, o Brasil ainda poderá estender as sanções às áreas de serviços e propriedade intelectual.

Não faz sentido encarar o contencioso como uma oportunidade para alimentar disputas e desentendimentos. Ao contrário, representantes dos governos brasileiro e norte-americano já indicaram que a negociação é o melhor caminho. Não por acaso, o Brasil estipulou um prazo de 30 dias para as medidas entrarem em vigor. Até lá, os dois países podem chegar a um acordo.

Para que isso ocorra será preciso que os EUA se disponham a apresentar compensações satisfatórias. O ideal para os produtores brasileiros de algodão seria que o Congresso norte-americano se sentisse pressionado a modificar o programa de subsídios -que não pode ser suprimido apenas pelo Executivo.

O caso também oferece uma chance para o Brasil reavaliar seus laços comerciais com os EUA, que têm sido deixados de lado, equivocadamente, pelo atual governo. É flagrante o declínio do intercâmbio entre os dois países em favor da China, que no ano passado superou os EUA na corrente de comércio com o Brasil.

Não é prudente que as exportações brasileiras mantenham-se apoiadas em commodities cujos volumes e preços dependem quase que inteiramente dos humores da economia chinesa. Embora extraordinário, o crescimento chinês não é imune a reveses -e uma crise no país asiático poderia causar danos muito sérios ao Brasil.

É preciso que o governo brasileiro redobre esforços para conquistar mercados, abandone o imobilismo e o preconceito ideológico quando se trata de discutir acordos bilaterais e promova medidas internas para aplacar os efeitos negativos da taxa de câmbio e das ineficiências burocráticas sobre as vendas externas.


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